Enquanto autoridades de saúde das três esferas do poder
público e o Comitê Rio 2016 garantem que os planos de assistência, vigilância
sanitária e contingência estão prontos para os Jogos Olímpicos, que começarão
em 5 de agosto, o Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio de Janeiro
(Cremerj) e profissionais da área têm dúvidas e cobram protocolos e ações
efetivas. Estoques de sangue insuficientes, falta de treinamento, equipes
incompletas, superlotação nos hospitais e crise financeira encabeçam o rol de
preocupações. Já os que estão à frente dos preparativos acenam com um efetivo
de pelo menos 70 mil pessoas, que trabalharão nas instalações olímpicas e em
unidades públicas de saúde no atendimento tanto a espectadores e participantes
do evento quanto à população em geral. Os organizadores anunciam também a
proibição de férias, a contratação temporária de profissionais para trabalhar
durante as Olimpíadas e as Paralimpíadas, obras e novas ambulâncias.
Esperamos ter uma edição tranquila das Olimpíadas, mas
estamos capacitados para agir em situações como acidentes com múltiplas
vítimas. Temos ainda um plano de contingência para acidentes com produtos
químicos, biológicos, radiológicos e nucleares. Há um protocolo tripartite, que
envolve órgãos de segurança e saúde municipais, estaduais e federais.
Realizamos recentemente um simulado com remoção aeromédica no Rio — informa o
coordenador-geral de Vigilância e Resposta às Emergências em Saúde Pública do
Ministério da Saúde, Wanderson Oliveira.
‘É NECESSÁRIO TREINAR MUITO’
Entre os especialistas que têm questionamentos em relação
à preparação para os Jogos está o cirurgião Alfredo Guarischi, membro da Câmara
Técnica de Segurança do Paciente do Conselho Federal de Medicina. Segundo ele,
é preciso simular situações complexas de atendimento:
Nossos cambaleantes hospitais públicos precisam de ajuda para cumprir sua
missão no dia a dia. A maioria das equipes de pronto-socorro não tem
profissionais em número e experiência em medicina de urgência e trauma.
Precisamos simular e treinar as diversas possibilidades já conhecidas e
estabelecer os planos de contingência. Não adianta publicar decretos ou normas.
É necessário treinar muito. Mesmo não ocorrendo um ato terrorista durante os
Jogos do Rio, haverá um significativo aumento da demanda por atendimento
médico, pois teremos mais gente na cidade e, consequentemente, mais acidentes
de trânsito, apendicites, vesículas doentes... Doenças não respeitam feriados.
Com o objetivo de obter dados concretos sobre o
planejamento, o presidente do Cremerj, Pablo Vazquez, convidou organizadores e
fiscais (Ministério Público e Defensoria Pública) dos Jogos para uma reunião no
próximo dia 19:
O que estamos vendo nos preocupa. Os hospitais têm uma estrutura frágil, o
HemoRio está com dificuldade de conseguir estoque de sangue e o município
apresenta déficit de leitos de CTI.
No início do mês passado, o Cremerj fiscalizou o HemoRio
e o Hospital Lourenço Jorge. No primeiro, diz Vazquez, o conselho constatou que
o atraso nos pagamentos do pessoal terceirizado vem prejudicando a coleta de
sangue:
O estoque estratégico da unidade está praticamente zerado
e, para a assistência ao público durante os Jogos, o HemoRio precisará de cerca
de 8 mil bolsas de sangue.
No entanto, a direção do HemoRio assegura que, apesar das
dificuldades, não há falta de sangue ou insumos. Além disso, diz que está
trabalhando para alcançar um estoque estratégico de duas mil bolsas de sangue
durante as Olimpíadas.
No Hospital Lourenço Jorge, na Barra, o Cremerj encontrou
pacientes internados em corredores da emergência, ausência de leitos e de
bolsas de sangue, déficit de profissionais e baixo estoque de medicamentos. Na
unidade, assim como em outros centros médicos da rede pública da região, não há
um setor de neurocirurgia, mais um motivo de preocupação para o conselho.
O Lourenço Jorge será um dos cinco hospitais-referência
para transferência de espectadores presentes em instalações olímpicas (a
chamada Família Olímpica, integrantes do COI, jornalistas credenciados e
voluntários serão removidos para unidades privadas). Os demais, todas
municipais, são o Souza Aguiar, no Centro; o Miguel Couto, na Gávea; o Salgado
Filho, no Méier; e o Albert Schweitzer, em Realengo.
Este mês, será entregue no Souza Aguiar um CTI reformado,
com capacidade para 40 pacientes. O hospital já recebeu um novo tomógrafo,
equipamentos para o centro cirúrgico, aparelhos de ultrassonografia e macas. No
Miguel Couto, a sala de traumatologia foi reformada e, em julho, serão
entregues três leitos especiais para isolamento de pacientes com doenças não
identificadas pelos médicos.
Os diretores dos hospitais-referência nos ajudaram a elaborar o plano de
contingência da rede municipal para acidentes com múltiplas vítimas. Nessas
unidades, também fizemos simulações e treinamos profissionais, que serão
multiplicadores em caso de necessidade — afirma Daniel Soranz, secretário
municipal de Saúde.
Ainda de acordo com Soranz, nos eventos-testes, cerca de
dez mil profissionais da rede da prefeitura vêm aprendendo a usar softwares que
facilitam a comunicação entre pessoas que falam idiomas diferentes. Cerca de 9
mil profissionais do município também estão sendo treinados para identificar
doenças de notificação compulsória que não existem no Brasil, como ebola.
Nas instalações olímpicas, o atendimento a atletas e
espectadores ficará sob a responsabilidade do Comitê Rio 2016 e será feito por
voluntários. Nas arenas, haverá equipes de campo, para socorrer atletas. Na
Vila dos Atletas, está sendo montada uma policlínica para os 12 mil atletas e
demais integrantes das delegações que ali ficarão hospedados.
REMOÇÕES: 146 AMBUL NCIAS
Para a transferência de casos mais urgentes, haverá dois
helicópteros da FAB. Mas a remoção de pacientes será feita basicamente por 146
ambulâncias, cedidas pelo governo federal à Secretaria estadual de Saúde.
Está fechado todo o planejamento, com mapas e rotas de fuga das ambulâncias —
assegura João Grangeiro, diretor de serviços médicos do Comitê Rio 2016.
O processo de contratação da empresa que vai selecionar
profissionais e operar as ambulâncias está em fase final, diz a subsecretária
estadual de Saúde, Hellen Miyamoto. Os recursos necessários — R$ 30 milhões —
serão repassados pelo Ministério da Saúde.
Segundo Hellen, seis hospitais estaduais — Getúlio
Vargas, Carlos Chagas, Alberto Torres, Azevedo Lima, Adão Pereira Nunes e Dona
Lindu — estão preparados para o plano de contingência.
Não haverá férias na rede estadual e municipal de saúde
durante os Jogos. Trabalharemos na plenitude de nossa força de trabalho — afirma
Helen.
O estado não fará contratações para os Jogos, mas o
município abriu 1.972 plantões extras para médicos. E o Ministério da Saúde
está contratando temporariamente 2.493 profissionais. Fernando Boigues,
presidente do Sindicato dos Hospitais e Clínicas do Município do Rio, diz que
as equipes da rede privada trabalharão completas. Ele destaca que hospitais
particulares poderão ser utilizados pela organização das Olimpíadas:
A rede privada estará pronta, e se for acionada, vai
colaborar em eventuais casos de grandes proporções.
Fonte: Globo Online